Eu era apenas uma menina presa em uma casa de
prostituição. Para ser sincera, não me recordo se um dia tive uma mãe ou um
pai, nem mesmo se tive um lar em algum momento da minha vida. Acredito que
possivelmente eu havia nascido ali, naquele ambiente de todo tipo de abusos
possíveis. A minha idade devia estar entre oito e dez anos; ninguém sabia me
dizer ao certo. Pensar sobre essas coisas me causava uma imensa tristeza, mas
ali não havia lugar para isso.
Uma mulher cuidava de mim e de mais três meninas; ela era fria e furiosa. As janelas e portas eram gradeadas. O que conhecíamos do mundo estava entre a grade da janela e o muro sem reboco, sujo e mofado, que cercava o lugar. Nas horas de folga, contávamos histórias, criávamos uma vida perfeita com familiares e até animais domésticos. Era a melhor parte do dia, quando esquecíamos a nossa realidade cruel.
A noite estava por vir e nos preparávamos para atender alguns clientes que chegariam em breve. No nosso quarto, não atendíamos a eles; havia outros cômodos para atendermos aos desejos imundos. Posso dizer que o nosso quarto era até bonito, com um armário de madeira e paredes brancas, com duas camas grandes de madeira e colchões que pareciam pedras. Contudo, no canto do quarto havia uma penteadeira com um espelho enorme. Ah, ela era linda, com flores desenhadas na madeira e um perfume suave que a cobria dos pés até a ponta mais alta. A penteadeira continha vários potes de pó branco e muitos batons coloridos.
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