Após fechar os meus olhos, fui levada a um lugar desconhecido, o meu espírito vagou por uma cidade histórica e pude sentir o aroma do passado. As ruas eram iguais, não havia pessoas, nem ruídos, carros ou bicicletas. Diante de mim, um letreiro luminoso se acendeu e me indicou um caminho mediante uma seta vermelha. Ao ver a seta, uma forte atração me conduziu sem receios. Entrei em um shopping ou uma galeria, o aspecto era antigo, mas existia sim um comércio, contudo, sem clientes. Resolvi seguir várias setas que me conduziam sempre para corredores e anexos inferiores. Ao chegar ao subsolo daquele local, percebi estar em um andar abaixo do último estacionamento, sozinha e em um ambiente com pouca iluminação. Parei para questionar o meu comportamento, mas a sensação de êxtase me conduzia instintivamente. As setas me direcionaram a uma porta, com a seguinte placa: For you!
Por um tempo permaneci indecisa se deveria ou não abrir, eu parei, pressenti um direcionamento sobrenatural. Assim que resolvi abrir a porta, avistei uma imensa e luxuosa loja de artigos femininos, com cores harmoniosas e um perfume inebriante. Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi a ausência de pessoas. Em todo o ambiente, não havia nenhum cliente além de mim, todavia, pelos corredores, uma quantia incontável de funcionários uniformizados. Tudo era exagerado, mas atrativo, os produtos expostos não possuíam um valor de venda. Os funcionários ofereciam petiscos e bebidas. No início, não aceitei nada, mas após um tempo eu não resisti. Aceitei um patê de azeitonas com torradas, o sabor estava agradável, também escolhi alguns vestidos e nada me foi cobrado. Com o passar do tempo, aliás, não consigo definir o tempo preciso, possivelmente eu estava presa a algum tipo de embriaguez acidental, uma angústia intensa me tomou e uma intuição de não pertencimento me despertou. Afinal, não havia sentido lógico naquele lugar, então, consegui retornar para a realidade. Busquei o gerente local e solicitei a conta dos produtos. Ele me respondeu que nada seria pago, tudo por cordialidade. Ao me dizer isso, notei uma apatia em seu olhar.
Depois de algumas horas, percebi que não era uma loja comum, eu estava presa a um tipo de realidade imposta e cativante. Caminhei para a porta de saída, a mesma pela qual entrei, porém estava trancada. Quando os funcionários perceberam, vieram atrás de mim e me disseram que eu não poderia sair. Em cada olhar direcionado a mim, eu vi um brilho avermelhado e sem vida, compreendi que estava presa a um ritual macabro cujo objetivo era me manter alienada e feliz por um longo período. Olhei ao meu redor e todo o cenário se alterou para uma vastidão escura e fria. De repente, a porta se abriu sozinha, e atrás dela, apenas fogo e fumaça. O gerente se aproximou e me disse: a partir daqui, somente este nível inferior. Mediante aquela armadilha, eu congelei. Nesse momento, o fogo soprou o vento da própria morte que habitava nele.
Publicação jornal Fatos & Notícias ES.


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