No interior,
em um pequeno sítio, uma menina gostava de ir até o laranjal. Havia um pé de
laranja-lima, o seu favorito, aquele cujas laranjas eram muito mais saborosas.
Os seus avós sempre diziam para não ir ao pomar depois que o sol se pôr. Havia
lendas e sussurros sobre aparições misteriosas. Ela era apenas uma criança que
não se importava com crenças e superstições.
Naquele final
de entardecer, a pequena saiu de casa sorrateiramente, ninguém a viu. Seu objetivo,
o pé de laranja-lima. Carregava consigo somente uma pequena faca para cortar as
laranjas e saciar a sua sede. Contudo, na calmaria da penumbra, a menina já
havia colhido mais de cinco laranjas e se preparava para se sentar em um banco
de terra vermelha para descascar as frutas.
Assim que
saboreou a sua primeira laranja, alguns passos foram ouvidos por ela. Um vento
intenso tocou a sua face. Com os olhos semicerrados, ela buscou ao redor, mas a
sua visão estava comprometida pela noite escura. O vento começou a formar
pequenos redemoinhos ao seu redor, o medo a fez deixar as laranjas caírem pelo
chão. Um vulto similar a uma sombra saiu de dentro de um dos redemoinhos e se
materializou ao seu lado. Os seus olhos não piscaram e ela viu claramente na escuridão
um menino negro com um sorriso provocante. Ela se levantou diante dele, mas não
conseguiu forças para correr. Ele a olhou e sorriu sem parar… até se tornar
vento novamente.
A menina
desmaiou. Foi encontrada por seu avô debaixo do pé de laranja-lima. A partir
daquele dia, ela não pronunciou mais uma palavra. Ela não conseguiu se
expressar, nem ao menos explicar o que havia presenciado. Suas noites eram
atormentadas por pesadelos e somente anos depois ela conseguiu compreender a
verdade por trás das crenças e lendas ditas pelos anciões.


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